Memória de um Lugar — A Reabilitação do Castelo de Ourém
Como dar uma nova vida a uma ruína sem apagar a sua história?
Esta foi a pergunta que guiou o meu projeto final de mestrado em Arquitetura na Universidade da Beira Interior. Uma viagem de investigação, desenho e paixão por um monumento nacional esquecido no tempo: o Castelo de Ourém.
O Lugar
Ourém é uma cidade medieval no coração de Portugal, com um castelo que domina a paisagem desde o século XII. Mas o terramoto de 1755, as Invasões Francesas e décadas de abandono deixaram-no em ruína silenciosa.
Quando visitei o castelo pela primeira vez, senti qualquer coisa difícil de explicar. Havia uma presença ali, uma memória coletiva presa nas pedras, à espera de ser redescoberta. O centro histórico, com as suas ruas em espiral desenhadas pela topografia, parecia uma impressão digital — única, irrepetível.
"Nós somos feitos de memórias. É isso que nos distingue, enriquece e marca."
O Desafio
O castelo não é apenas um monumento — é um conjunto de três torres triangulares, o Paço dos Condes (construído pelo 4.º Conde de Ourém no século XV) e dois torreões avançados. Cada peça estava a diferentes cotas, diferentes estados de conservação, e sem qualquer ligação entre si.
O objetivo era claro: devolver o castelo às pessoas. Criar um espaço cultural que fosse mais do que um museu — um lugar de experiência, de memória, de identidade.
A Proposta
A estratégia assentou num conceito simples: o percurso como fio condutor.
Imaginem uma linha de aço corten — material que envelhece com dignidade, como a própria ruína — a coser os vários núcleos do castelo. Uma ponte que liga a torre principal ao Paço. Uma passerelle que se estende sobre a colina como uma moldura para a paisagem. Escadas que transformam a circulação num ato de descoberta.
O programa divide-se em quatro partes:
1. Contemplação — As torres, recuperadas como miradouros sobre a paisagem
2. Eixo Conector — A "Chave", o coração escultórico que interliga tudo
3. Museu do Vinho — Instalado no Paço dos Condes, numa lógica de "caixa dentro da caixa"
4. Posto Observação — Os torreões, onde o percurso termina com uma vista de 360°

"O museu é o espaço que ensina a olhar o património e o faz sentir enquanto espaço que recria ambiências."
Porquê um Museu do Vinho?
Porque o vinho está na origem do próprio nome de Ourém (Auren, de Baco). Porque os monges de Cister ensinaram os oureenses a cultivá-lo no século XII. Porque o vinho de Ourém é DOC, é identidade, é resistência — tal como o castelo.
O museu ocupa o Paço dos Condes, com uma adega no piso -1, receção e espaço de contemplação no 0, exposições temporárias no 1, um bar no 2, e um restaurante panorâmico no piso 3 — uma caixa de aço que paira sobre a ruína sem a tocar, como se flutuasse no tempo.
Os vazios entre a caixa nova e as paredes antigas criam percursos de circulação — uma dança entre o existente e o contemporâneo, entre o passado e o presente.
O Que Aprendi
Este projeto ensinou-me que reabilitar não é reconstruir. É ouvir o que o edifício tem para dizer. É respeitar a patina do tempo, as marcas, as cicatrizes. E é ter a coragem de introduzir o novo — não para competir, mas para dialogar.
Aprendi que a arquitetura não é sobre edifícios. É sobre pessoas, memórias e identidade. Um castelo do século XII pode ser mais do que uma ruína — pode ser um museu, um restaurante, um miradouro, um palco para a cultura. Pode ser, acima de tudo, um lugar vivo.
O Resultado
Não é todos os dias que se tem a oportunidade de desenhar o futuro de um Monumento Nacional. Foi um privilégio, uma responsabilidade, e acima de tudo, uma paixão.
Este projeto foi validado pela Universidade da Beira Interior e está alinhado com o programa de reabilitação aprovado pelo Município de Ourém.
Trabalho premiado com o Prémio Jovem Universitário de Ourém em 2019.
Ana Carolina Reis — Arquiteta, Mestre pela Universidade da Beira Interior (2018)